
Colaboração de Alan Victor
Há viagens que nos fazem conhecer novos lugares e outras que nos aproximam ainda mais do nosso próprio país. Foi assim com o Pará. Entre Belém, a Ilha do Combu e a Ilha do Marajó, encontrei diferentes paisagens, sabores e formas de viver que revelam a força cultural da Amazônia.
Ao longo do roteiro, a gastronomia, os saberes tradicionais, a hospitalidade e os encontros com pessoas que conhecem e preservam esse território ajudaram a tornar cada parada ainda mais especial. Uma viagem por rios e tradições que, além de ampliar meu olhar sobre o Norte, aumentou ainda mais o meu orgulho de ser brasileiro.
Ilha do Combu
Antes de qualquer viagem, gosto de pesquisar bastante sobre o destino, seja por meio de matérias, seja pelos conteúdos compartilhados nas redes sociais. Aos poucos, vou anotando todos os lugares que desejo conhecer e, assim, começo a desenhar o meu roteiro.
Desta vez, porém, tive uma ajuda ainda mais especial: a da minha amiga Dina Carmona, uma voz potente do Norte e apaixonada pela Amazônia. Quando contei que estaria em Belém, ela não hesitou em dizer que eu precisava conhecer a Ilha do Combu.
Por conta do roteiro, só havia uma possibilidade: sair do aeroporto e seguir diretamente para a ilha. E foi exatamente o que fizemos. Assim que chegamos a Belém, fomos recebidos pela Dina e embarcamos com a Shallom Turismo, que oferece roteiros exclusivos pela Ilha do Combu.
A poucos minutos de barco de Belém, a Ilha do Combu é uma das principais ilhas que compõem a região insular da capital paraense. Cercada pelas águas do Rio Guamá e pela floresta amazônica, a região preserva um modo de vida ribeirinho e reúne iniciativas que valorizam a culinária, os saberes tradicionais e os produtos da biodiversidade local.
Uma das primeiras paradas foi o Papachibé, onde começamos o roteiro com um delicioso almoço e muitos aprendizados sobre os sabores da Amazônia. Entre as descobertas, até o açaí branco, uma variedade mais rara do fruto, de polpa clara e sabor mais suave que o tradicional açaí roxo.
Em seguida, na Biojoias do Combu, conhecemos de perto os saberes tradicionais que Dona Elza de Fátima, uma das guardiãs desses conhecimentos na ilha, mantém vivos ao lado de sua nora, Silvia Rodrigues, artesã e fundadora do espaço. Entre as tradições preservadas está a extração artesanal do óleo e da manteiga de andiroba a partir das sementes da planta, um conhecimento aprendido por Dona Elza com a própria sogra e transmitido ao longo das gerações.
Além de compartilhar esse saber, Dona Elza também nos apresenta o conhecimento sobre as ervas regionais, com os tradicionais banhos de ervas voltados ao bem-estar. Foi uma oportunidade de conhecer um pouco mais dessa relação entre natureza, cultura e cotidiano amazônico, além de admirar as belas biojoias produzidas no ateliê.
Para finalizar a visita à ilha, seguimos para a Filha do Combu, conhecida pelo premiado chocolate produzido a partir do cacau da região. Na volta para Belém, fomos contemplados por um belíssimo pôr do sol sobre as águas.
Belém
A realização da COP30 fez bem à capital paraense e reforçou algo em que acredito: é fundamental que grandes eventos circulem pelo país, ampliando os olhares para além do Sudeste e valorizando destinos que têm muito a revelar. Belém tem personalidade própria e uma riqueza cultural que se manifesta na arquitetura, nos mercados, na gastronomia, nas tradições e na vida cotidiana.
Para a hospedagem em Belém, escolhemos o Tivoli Maiorana Belém Pará, inaugurado em outubro de 2025, que faz parte da curadoria do Circuito Elegante. Localizado no bairro da Campina, o hotel está próximo de alguns dos principais pontos turísticos da cidade, como a Estação das Docas, o Ver-o-Peso, o Forte do Presépio e a Praça da República. Com 176 acomodações, é o primeiro hotel Tivoli na região Norte do Brasil.

A cidade reúne diferentes influências que ajudam a contar a história da Amazônia. No centro histórico, construções como o Theatro da Paz e o Forte do Presépio dividem espaço com mercados, praças e ruas que preservam parte da memória de Belém. Entre os endereços que merecem entrar no roteiro estão o tradicional Mercado Ver-o-Peso, a Estação das Docas, o Mangal das Garças e a Praça da República.
A gastronomia também é um dos grandes motivos para conhecer Belém. Ingredientes amazônicos como açaí, tucupi, jambu, cupuaçu, taperebá, bacuri e castanha-do-Pará aparecem em preparos que valorizam os sabores e os saberes da região.
Entre os destaques está a Casa do Saulo, comandada pelo chef Saulo Jennings, instalada no Palacete das Onze Janelas. Começamos pelas entradas, com a Casquinha de Caranguejo, preparada com carne de caranguejo refogada no azeite, alho, cebola e pimentinha, coberta com farinha de Bragança torrada na manteiga e vinagrete; e o Trio Tapajônico, que reúne dadinhos de tapioca com geleia de cupuaçu apimentada, bolinhos de piracuí com maionese de pirarucu defumado e iscas de peixe com geleia de açaí.
Como principal, o Tambaqui de Banda, desossado e assado na brasa, servido com banana-da-terra, farofa de piracuí, arroz de chicória da Amazônia, vinagrete de feijão Santarém e farinha, é uma ótima pedida para compartilhar entre até três pessoas. Para adoçar, o Da Selva combina creme de cupuaçu selvagem e creme de chocolate do Combu, finalizado com farofa de biscoito de castanha-do-Pará.
Outro endereço que merece destaque é o Celeste Restaurante, comandado pela chef Esther Weyl. Entre as entradas, provamos o Gyoza de porco guisado no tucupi preto, servido no tucupi amarelo, e o Pirão de rabada com tutano. Nos principais, chamaram a atenção a Barriga de porco recheada de farofa em curry de batata e feijão verde; o Filé com caramelo de banana e risoto de queijo coalho; a Costela assada e prensada com aligot de macaxeira com queijo Flor de Minas, farofa de panko e couve tostada; e o Peixe do dia com cuscuz de farinha d’água, feijão manteiguinha e jerimum assado. Para a sobremesa, destaque para o Bolo de macaxeira brûlée, servido com creme anglaise de requeijão e caramelo de cumaru, além do novo Cremoso de chocolate com chantilly de cupuaçu.
Já o charmoso Ver-o-Pesinho reúne gastronomia e uma cuidadosa curadoria de arte local. Entre as escolhas, vale provar o bolo de macaxeira e conhecer o café de açaí, uma combinação que traduz bem a criatividade e os sabores amazônicos.
Outro clássico que não pode ficar de fora do percurso é o Tacacá do Renato, uma ótima oportunidade para experimentar um dos preparos mais tradicionais da culinária paraense.
No Amazônia na Cuia, vale pedir o vatapá e o Menu de Salgados, com unha de caranguejo, charque com queijo do Marajó, charuto de pato, rabo de camarão e redução de tucupi e chicória.
E, para adoçar o roteiro, uma parada no Sorvete Cairu é praticamente obrigatória. Entre os sabores que mais gostei estão o Carimbó, feito com doce de cupuaçu com sorvete de castanha-do-Pará, taperebá, bacuri e o Mestiço, mescla de tapioca com açaí.
Belém é, sem dúvida, uma porta de entrada especial para descobrir a força, a diversidade e a identidade da Amazônia, também por meio de uma culinária que preserva tradições e transforma ingredientes da floresta em pratos cheios de personalidade.
Ilha do Marajó
Foram menos de 30 horas na Ilha do Marajó, mas tempo suficiente para ter uma certeza: preciso voltar!
A viagem começa em Belém, de onde seguimos rumo à Ilha do Marajó com a Henvil Transportes, partindo do Terminal Hidroviário de Belém com destino ao Terminal de Soure. Para montar esse roteiro e descobrir alguns dos lugares que ajudam a revelar a essência da ilha, contei com as dicas do embaixador da Ilha, Madson Santos, que compartilhou sugestões importantes para aproveitar melhor o pouco tempo que tinha no destino.
Durante a travessia, a paisagem já começa a mudar e revela, aos poucos, um território de dimensões impressionantes, onde campos, rios, manguezais e florestas ajudam a formar um dos cenários mais singulares da Amazônia.
A imensidão dos campos, os rios, os búfalos, a cultura marajoara, a cerâmica, os sabores da Amazônia e, principalmente, a maneira acolhedora de quem vive por ali fazem da ilha um lugar muito especial. Ao percorrer esse cenário, é impossível não lembrar de “Aquarela Brasileira”, de Silas de Oliveira, que celebra o Brasil em seus versos e também faz referência à Ilha de Marajó. É como se a canção ganhasse novos contornos quando se conhece de perto esse pedaço tão singular do país.
Fiquei no Hotel Ilha do Marajó, inaugurado no final de 2025, uma hospedagem que permite entrar no ritmo mais tranquilo da ilha e estar em contato com a natureza e a hospitalidade local. Em um destino tão conectado ao território, o próprio hotel acaba fazendo parte da vivência de conhecer o Marajó.
Também tive a oportunidade de conhecer a Mironga, onde fomos recebidos por Gabriela Gouvêa, filha de Tonga, idealizador da propriedade e uma referência na criação sustentável de búfalos na Ilha do Marajó. Gabriela atua como responsável técnica do espaço e também preside a Associação dos Produtores de Leite e Queijo do Marajó.
A visita permitiu entender um pouco mais sobre a produção artesanal do tradicional Queijo do Marajó e acompanhar de perto o cuidado envolvido em uma produção que carrega história, tradição e identidade. Durante a degustação do leite e dos queijos de búfala, ainda fomos presenteados com um belíssimo pôr do sol, daqueles momentos que tornam a passagem pelo local ainda mais inesquecível.
Na Cozinha Tucupi, sob o comando da chef Carmen Helena, os sabores amazônicos apareceram em pratos que valorizam ingredientes da região. Provei o Joanes, peixe amazônico grelhado servido com purê de abóbora reduzido no tucupi e crispy de couve. Para a sobremesa, a Torta de Bacuri, preparada com iogurte natural, calda de bacuri e farofa de biscoito, encerrou a refeição com sabor marcante.
A gastronomia também passou pelo Solar do Bola, onde experimentei carne de búfalo em mais um encontro com ingredientes que fazem parte da identidade e da culinária do Marajó.
Conheci ainda o trabalho de artistas e produtores que mantêm viva a essência marajoara por meio da arte e dos saberes transmitidos entre gerações. Na M’Barayo, conheci de perto o trabalho do Mestre Carlos Amaral, referência na cerâmica marajoara, e de sua esposa, a ceramista Rosângela, que trabalha ao seu lado no ateliê. Durante a visita, ela compartilhou um pouco mais sobre os grafismos, as técnicas e as referências ancestrais presentes nas peças, inspiradas na tradição dos povos que habitaram a região. O próprio nome M’Barayo, de origem indígena, significa “Alma da Terra” e traduz a forte ligação do trabalho do casal com o território e sua história.
Também visitei o Ponto de Cultura Coletivo Arte Mangue Marajó, liderado pelos artistas Ronaldo Guedes e Cilene Oliveira. O espaço reúne diferentes expressões da produção artística local e valoriza referências, histórias e saberes da ilha. Entre peças, técnicas e símbolos que dialogam com a cultura marajoara, essas visitas ajudaram a compreender como a arte também preserva e transmite uma parte importante da história e da identidade do Marajó.
Veja algumas fotos:








E, para fechar o roteiro com um toque doce, provei os sabores da Q’Sorvete Marajó. Entre as combinações, chamaram a atenção o Cupuaçu, com doce de leite, geleia de cupuaçu e Queijo do Marajó, e o Ice Baby Búfalo, feito com nata de leite de búfala e Queijo do Marajó.
Foi pouco tempo, mas suficiente para conhecer de perto a produção artesanal, a gastronomia e a singularidade do Marajó. E, principalmente, para entender que ainda há muito mais para descobrir por lá.
Voltei do Pará com a sensação de que uma viagem pelo estado é, também, uma oportunidade de olhar para o Brasil com mais atenção. Belém, Combu e Marajó mostram, cada um à sua maneira, um território de sabores marcantes, tradições vivas, paisagens únicas e pessoas que mantêm sua cultura presente no cotidiano.
Mais do que conhecer lugares, essa viagem me aproximou de histórias, saberes e modos de vida que fazem parte da identidade brasileira. Até a próxima, Pará!


